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Daisypath Anniversary tickers "... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos,julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre." Miguel sousa tavares

 

Este texto foi publicado num blog , que infelizmente ja não existe ,onde a sua autora colocava os seus desabafos/pensamentos  de uma forma viciante de ler , pena tenho de não ter guardado todos aqueles textos fabulosos . Não sei se a autora o guardou ou não ,de qualquer forma gostaria que mais pessoas o pudessem ler porque sempre o achei excelente e como não faço ideia de  apagar este blog é uma forma dele perdurar mais uns tempos na net .
 Se a autora por aqui passar faça o favor de dizer algo .
 
agora disfrutem


 

"Quis muito voltar a ter 15 anos. Voltar aos verões doces e despreocupados, aos dias inteiros passados na praia, sem guarda sol nem protector solar, sem comida para todo o dia e sem dinheiro no bolso. Quis voltar aos fins de tarde a ouvir Xutos deitada no chão envolta numa nuvem de fumo de tabaco e ganzas (que nunca fumei por ser medricas demais…). Quis voltar ao quarto dos fundos, virado para o ribeiro e para o pôr do sol, onde se faziam planos e se davam beijos molhados. E quis não ter que pensar na morte, nas perdas, na dor, no processo longo e doloroso de assistir ao desabar das fantasias e dos projectos para a vida inteira com pessoas que vivem eternamente.

 

 Tive vontade de fechar os olhos e voltar atrás e ficar lá, no meu universo tão seguro e protegido quanto irreal, mas no qual o tempo corre sempre em direcção ao mais e melhor da vida e nunca coisas más acontecem a pessoas boas.

 

Quis não vir trabalhar, não ser sanita dos outros o dia inteiro, não pensar por ninguém, não decidir por ninguém, não precisar de manter o sorriso de quem sabe que o que tem de ser feito tem mesmo de ser feito, nem que não faça sentido nenhum. Quis dormir um sono longo e reparador e acordar do sonho mau, com o cheiro das torradas e do café na cama, das manhãs de Domingo, com o gato a dormir aos pés, com beijinhos na testa, o cheiro da minha mãe e das suas mãos macias.


 
Quis voltar a ter 15 anos e ser mimada, cuidada e protegida dos males do mundo e das desilusões. Quis muito não ter arrependimentos, nem mágoas, nem páginas negras, nem maus passos impossíveis de corrigir. Quis não sentir remorsos, nem raiva, nem vontade de apagar pessoas da minha existência, nem pena de mim própria, nem vazios intoleráveis. Quis não ter receio de não saber, de não poder, de não estar à altura.


 
Durante um segundo, na estação de comboio do Cais do Sodré, quis que a minha vida fosse uma folha em branco, na qual pudesse escrever a lápis."


 

 


 

by

perfumedevioletas
 

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3 comentários

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perfumedevioletas a 08.01.2009

Samokal,

O título deste post era para ter sido "Durante um segundo nos olhos azuis de uma miúda de 15 anos". A miúda em causa estava na estação do comboio com um grupo de amigos, penso que iam para a praia. Cruzei-me com ela, eu carregada de angústia, de pena, de solidão e certamente de olhos tristes e baços, e ela limpa, fresca, com os olhos azuis transparentes tão puros de receios e dramas, o cabelo loiro a caír-lhe pelos ombros! Por um segundo tudo naquela adolescente era luz, esperança, promessas! Imaginei-a com pensamentos simples e doces, com cheiro a baunilha, riso fácil e sono profundo. Nessa manhã, sei que me senti velha. Lembro-me de ter olhado para tudo à minha volta e ter pensado que nada fazia sentido nenhum. De repente, pela primeira vez na vida, apercebi-me que eu nunca mais seria uma miúda de 15 anos. E isso doeu-me tanto que os olhos me arderam de lágrimas e senti vontade de romper num choro diluviano.

Vim aqui por acaso, porque senti saudades de te ler. O perfumedevioletas não morreu. Guardei tudo. Apaguei-o porque deixou de me fazer sentido. Mas continuo a escrever, porque a escrita me lava a alma. Achei que fosse apenas essa a sua função. Hoje apercebo-me que as minhas palavras não se perderam no vazio. Sinto-me honrada por me teres dado de novo vida no teu espaço. Não poderia haver melhor guardião dos meus tesouros.

Obrigada

perfumedevioletas
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Cris a 02.11.2014

Merece a homenagem. Muito bom!
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samokal a 03.11.2014

Um dos textos que mais gostei de ler

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